Em Quem Estamos Nos Gloriando?
A lição da igreja de Corinto continua sendo a lição que toda geração cristã precisa aprender
A igreja de Corinto não era uma comunidade decadente. Era, na verdade, uma congregação notavelmente dotada, rica em dons espirituais, em conhecimento teológico, em líderes capazes. Paulo mesmo reconhece isso na abertura de sua carta. Mas havia algo corroendo tudo isso por dentro: as pessoas haviam começado a se gloriar nas coisas erradas.
Alguns diziam: "Eu sou de Paulo." Outros: "Eu sou de Apolo." Outros ainda: "Eu sou de Cefas." O que parecia ser preferência por determinado estilo de pregação era, na verdade, um sintoma de algo muito mais sério, o deslocamento da glória. Em vez de Cristo no centro, havia ministros, escolas de pensamento e grupos de identidade.
O problema não era ter bons líderes, boa teologia ou bons dons. O problema era transformar essas coisas em motivo de glória pessoal. E essa é uma tentação que não ficou no século I.
Paulo escreve para endireitar o que havia saído do lugar. E a pergunta que estrutura todo o primeiro capítulo de 1 Coríntios é também a pergunta que ele nos faz hoje:
"Acaso está Cristo dividido? Paulo foi crucificado por vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo?"
1 Coríntios 1.13
Não nos gloriemos em homens
Há algo muito natural no coração humano que nos leva a nos identificar com pessoas, com quem nos ensinou, quem nos batizou, quem pregou o sermão que mudou nossa vida. Não há nada de errado em admirar líderes, ser grato por eles, aprender com eles. O problema começa quando essa admiração desliza para a devoção, quando o instrumento ocupa o lugar do Senhor.
Paulo deixa o argumento simples e cortante: nenhum ministro morreu pelos seus pecados. Nenhum pregador, por mais ungido que seja, carregou a sua culpa na cruz. Nenhum teólogo, por mais brilhante que seja, tem autoridade própria sobre a sua alma. Cristo é o Senhor da Igreja, os líderes são servos Dele, não senhores de ninguém.
Isso não diminui os pastores e professores que Deus coloca na nossa vida. Mas coloca cada um no seu lugar correto. Quando um ministro faz algo de bom, a glória pertence a Deus que o chamou, capacitou e sustentou. Quando um ministro falha, não devemos perder a fé, porque nossa fé nunca deveria ter estado depositada nele.
Não nos gloriemos na sabedoria humana
Corinto era uma cidade profundamente fascinada pela filosofia e pela eloquência. Os gregos valorizavam a sabedoria como virtude suprema. Os judeus queriam sinais de poder. E Paulo chegou com uma mensagem que não se encaixava nas expectativas de nenhum dos dois grupos:
"Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus."
1 Coríntios 1.18
Paulo não adaptou a mensagem para soar mais inteligente. Não embalou o evangelho em argumentos filosóficos para agradar aos gregos, nem em sinais miraculosos para satisfazer os judeus. Pregou Cristo crucificado, e isso, para o mundo, soava como fraqueza e loucura.
Mas é exatamente aí que está o poder. A eficácia do evangelho não depende da sofisticação do pregador. Não depende do refinamento do argumento, da beleza da apresentação ou do grau acadêmico de quem anuncia. A palavra da cruz tem poder próprio, o poder de Deus que não aumenta nem diminui conforme a eloquência humana.
Conhecimento, filosofia e capacidade intelectual têm seu valor. Mas nenhum deles pode substituir a cruz de Cristo. E quando começamos a confiar mais na nossa capacidade de explicar o evangelho do que no próprio evangelho, já deslocamos a glória para o lugar errado.
Não nos gloriemos em nossa posição
Paulo então aponta o espelho para a própria composição da congregação coríntia:
"Considerai, irmãos, a vossa vocação; não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres."
1 Coríntios 1.26
Deus escolheu, com frequência, o que o mundo considera fraco, pequeno e desprezível. E fez isso intencionalmente, para que ficasse claro de onde vem o poder. Para que ninguém pudesse olhar para o resultado e atribuir o mérito à capacidade humana.
"Para que nenhuma carne se glorie diante dele" (v.29). Essa frase revela o coração do argumento. Deus não escolhe os fracos porque despreza os fortes, mas porque quando o fraco é usado de forma extraordinária, a única explicação lógica é a intervenção de Deus.
Isso tem uma aplicação direta para cada um de nós. Nossa posição social, nossa formação, nossa inteligência, nossos recursos ou nossa influência não são a base da nossa importância diante de Deus, e tampouco são o fundamento do nosso serviço a Ele. Deus não precisa da nossa excelência. Ele usa a nossa disponibilidade.
CENTRO
Cristo é a nossa verdadeira riqueza
Depois de demolir todas as glórias falsas — nos homens, na sabedoria, na posição —, Paulo revela o que, de fato, os coríntios possuíam. E é mais do que qualquer coisa que haviam considerado motivo de orgulho:
Cristo Jesus foi feito para nós
1 Coríntios 1.30 — tudo o que precisamos para nossa salvação está fundamentado nEle
Essa lista é extraordinária em sua abrangência. Cristo não é apenas o meio pelo qual somos salvos, Ele é o conteúdo da nossa salvação. Não somos sábios por conta própria: Cristo é a nossa sabedoria. Não somos justos por nosso esforço moral: Cristo é a nossa justiça. Não nos santificamos pela força de vontade: Cristo é a nossa santificação. Não nos libertamos pelos nossos méritos: Cristo é a nossa redenção.
Quanto mais compreendemos a grandeza de Cristo, menos necessidade encontramos de exaltar a nós mesmos.
Quando Cristo ocupa o centro, o orgulho perde o terreno. Não porque somos humildes por natureza, mas porque a grandeza dEle torna a nossa pequena glória completamente desnecessária.
A única glória legítima está no Senhor
Paulo encerra o argumento com uma citação do profeta Jeremias que condensa tudo numa só frase:
"Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor."
1 Coríntios 1.31
Não é uma proibição de alegria ou de gratidão. É um redirecionamento: toda glória que existe na nossa vida tem uma única fonte legítima. Se temos dons, Deus os concedeu. Se temos conhecimento, Deus nos ensinou. Se temos capacidade, Deus nos capacitou. Se temos salvação, Cristo nos redimiu. Se existe fruto em nosso ministério, Deus é quem produz o crescimento.
Não há espaço, portanto, para vanglória humana. Não porque devamos nos diminuir artificialmente, mas porque quando enxergamos a realidade com clareza, percebemos que não há nada em nós que não tenha vindo dEle.
O diagnóstico que a carta faz em nós
Antes de fecharmos, vale um momento de honestidade. A carta a Corinto foi escrita para uma congregação que tinha excelente música, boa teologia, grandes pregadores, dons espirituais abundantes e comunidade ativa. E ainda assim havia algo profundamente errado no lugar onde a glória estava depositada.
Podemos ter exatamente as mesmas bênçãos e cair no mesmo erro. A questão não é apenas "O que temos?" mas "Em quem estamos nos gloriando?"
Um diagnóstico honesto onde está a glória?
Cristo é suficiente. Cristo é a nossa sabedoria. Cristo é a nossa justiça. Cristo é a nossa santificação. Cristo é a nossa redenção. Toda glória que não termina nEle, termina no lugar errado.
Quando as pessoas olham para a sua vida, para o seu ministério, para a sua fé,
quem recebe a glória no final?