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Cinzas onde Havia Fogo

O perigo de servir a Deus sem amar a Deus — Apocalipse 2.1–7

ARTIGO • ALEX BOGAGIO • PASTOR CJCC

Cinzas onde Havia Fogo

O perigo de servir a Deus sem amar a Deus — Apocalipse 2.1–7

Existe uma forma de pecado que é especialmente difícil de identificar, porque se esconde exatamente onde menos esperamos: no mais profundo do coração. É possível estar no culto todo domingo, liderar uma célula, defender a doutrina com precisão, suportar perseguições por causa do nome de Cristo e ainda assim ter o coração frio diante de Deus.

A carta de Cristo à Igreja de Éfeso, em Apocalipse 2.1-7, expõe esse perigo com uma clareza que corta fundo. E ela continua sendo tão atual hoje quanto era no primeiro século.

"Conheço as tuas obras, o teu trabalho e a tua perseverança... Mas tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e pratica as obras que praticaste no princípio."

Apocalipse 2.2,4-5

Uma igreja extraordinária num lugar corrompido

Éfeso não era uma cidade qualquer. Ao lado de Roma, Alexandria e Antioquia, era uma das mais prósperas do Império Romano, um centro cultural e comercial de enorme influência. Mas também era uma cidade profundamente mergulhada no paganismo, na feitiçaria e na imoralidade. Ali se erguia o templo da deusa Ártemis, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. O filósofo Heráclito chegou a dizer que ninguém poderia viver em Éfeso sem chorar por causa de sua corrupção moral.

Foi nesse cenário que Paulo plantou uma igreja. O impacto do Evangelho foi extraordinário: pessoas que praticavam magia reuniram seus livros e os queimaram publicamente. A cidade chegou a se tornar um centro de evangelização para toda a Ásia Menor. Uma história de fé impressionante.

E ainda assim, trinta e cinco anos depois, Cristo escreve a essa mesma igreja com palavras que deveriam nos incomodar profundamente: "Tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor."

O que Cristo reconheceu

Antes de falar do problema, Cristo reconheceu tudo o que havia de genuíno na vida daquela comunidade. E eram coisas impressionantes:

Trabalho intenso e perseverança: Trabalharam até a exaustão e não desistiram diante das dificuldades.

Discernimento doutrinário: Identificaram e rejeitaram os falsos apóstolos que tentavam desviar o rebanho.

Perseverança no sofrimento: Suportaram tribulações por causa do nome de Cristo sem esmorecer.

Intolerância com o mal: Aborreceram as obras dos nicolaítas, as mesmas que Cristo aborrece.

Uma ficha impecável. Uma vida de serviço que qualquer pastor gostaria de ver em sua congregação. E ainda assim, a palavra de Cristo não foi de aprovação final, mas de repreensão. Porque os olhos como chamas de fogo enxergam o que nenhuma avaliação externa consegue ver.

Servir sem amar

O problema de Éfeso não era falta de esforço. Não era frouxidão doutrinária. Era algo muito mais sutil e muito mais perigoso exatamente por ser sutil.

É possível ter uma teologia impecável, um ministério ativo, uma disciplina doutrinária invejável e mesmo assim, ter o coração frio diante de Deus. O serviço pode continuar de pé muito depois que o amor já foi embora.

A carta de Paulo aos efésios, escrita cerca de trinta e cinco anos antes desta, havia elogiado o amor que eles tinham por todos os santos. Agora esse amor havia desaparecido. A chama ainda ardia, mas não era mais a mesma chama. O que um dia foi devoção havia se tornado rotina. O que foi paixão havia virado obrigação.

E Cristo chama isso pelo nome que merece: queda. "Lembra-te de onde caíste." Não é uma diminuição gradual aceitável. É uma queda, e toda queda exige um retorno.

O que apaga o primeiro amor

Como chegamos a esse lugar? Raramente acontece de forma repentina. O esfriamento do amor a Deus costuma ser lento, silencioso, e frequentemente se esconde atrás de coisas que parecem boas:

O orgulho do conhecimento

O saber que enche de soberba em vez de gratidão

As conquistas espirituais

O sucesso no ministério que desvia o olhar de Cristo para si mesmo

Os fracassos acumulados

O desânimo que convence que não vale mais a pena

A falta de perdão

A mágoa que endurece o coração e resfria a comunhão

O ativismo religioso

A paixão pela causa que faz esquecer o Senhor da causa

Dois sistemas de valores

Um para a igreja, outro para o resto da vida

Quando o primeiro amor diminui, não se trata de uma simples redução de fervor espiritual. Algo preencheu o espaço que Deus ocupava: trabalho, conforto, dinheiro, aprovação, segurança. Cristo não compete por esse espaço. Ele o reivindica.

"Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos."

Quando temos dificuldade em obedecer, temos um problema de amor, não de força de vontade. A obediência nasce do amor. Quando o amor esfria, a obediência vira fardo.

O caminho de volta

A misericórdia de Cristo nessa passagem é impressionante. Ele não descarta Éfeso. Ele não apaga o candelabro imediatamente. Ele convida ao retorno e a cura que oferece tem três passos simples, mas que exigem coragem:

1

Lembra-te

Olhe para trás. Lembre como era quando o amor ardia. Não fuja dessa comparação.

2

Arrepende-te

Reconheça que se afastou. Arrependimento não é sentimento, é mudança de direção.

3

Volta a agir

Faça as obras que fazia no princípio. O amor que age se renova agindo.

E Cristo acrescenta uma advertência séria: se não fizerem isso, Ele viria e retiraria o candelabro do seu lugar, não a segunda vinda, mas a disciplina que retira a presença eficaz do Espírito Santo, levando a comunidade ao esvaziamento e ao desaparecimento. Uma igreja pode continuar existindo institucionalmente muito depois de Deus ter partido.

Mas junto com a advertência há uma promessa gloriosa: "Ao vencedor darei a comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus." O vencedor não é o que nunca caiu, é o que, tendo caído, se levanta, se arrepende e volta. A esses, Cristo reserva a vida plena e eterna na presença de Deus.

Se o Espírito de Deus está nos mostrando que perdemos o primeiro amor, não queiramos endurecer o nosso coração. Não queiramos tentar compensar essa perda com mais atividades ou mais conhecimento. Voltemos à cruz. Queiramos meditar no que Cristo fez por nós. O Autor da vida se fez servo e morreu pregado em um madeiro para que pudéssemos viver. Essa razão é mais do que suficiente para amarmos o nosso Redentor por toda a eternidade. Precisamos lembrar. Precisamos nos arrepender. Precisamos voltar.

Alex Bogagio

Pastor CJCC

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